terça-feira, 12 de outubro de 2010

"A criatividade é a solução para nos tirar da crise"

'A criatividade é a solução para nos tirar da crise'
Lyn Heward, diretora criativa do Cirque du Soleil:


Vivemos dias controversos. Desemprego, redução de salários, aumento de impostos, enfim... a crise. Mas há quem a consiga contornar. Como? Com muita criatividade, defende Lyn Heward, diretora criativa do Cirque du Soleil.








Lyn Heward é a diretora criativa do maior espetáculo do mundo, o Cirque du Soleil. No seu dia a dia lida com o ego de 1500 artistas e tem ainda tempo para gerir mais de 21 espetáculos dispersos por todo o mundo.
Na próxima segunda-feira a ex-ginasta olímpica vem a Lisboa, ao Teatro Tivoli, para falar numa conferência sobre temas que lhe são próximos: criatividade e inovação nas organizações. Simpática e de língua afiada, Lyn Heward falou com o Expresso. Numa entrevista exclusiva, a autora do bestseller "A Chama da Criatividade" levanta o véu do que será a sua palestra na capital portuguesa.

O seu livro é um êxito de vendas em todo o mundo. A que atribui tamanho sucesso?O livro foi construído a partir da história do próprio Cirque du Soleil. Pessoalmente, acredito que o grande interesse das pessoas pelo livro se deve, em primeiro lugar, ao próprio fenómeno mundial que é o Cirque du Soleil. Mas diria que existem dois fatores que levam as pessoas a lê-lo: por um lado, o fascínio pela história do Cirque du Soleil e, por outro, a necessidade profissional e pessoal que hoje em dias todos temos em ser mais criativos. Muitas pessoas sentem-se aborrecidas com a vida que levam até que atingem um ponto em que dizem: "Se eu for mais criativo no meu dia a dia posso ter uma vida melhor." E este livro é dirigido a essas pessoas.

E como podemos estimular a criatividade no nosso dia a dia?Eu, por exemplo, que tenho um emprego magnífico no Cirque du Soleil, dou por mim muitas vezes a frequentar sempre os mesmos sítios. Se queremos ser mais criativos temos de ir a sítios diferentes, aventurarmo-nos e, acima de tudo, estarmos mais abertos ao mundo. Não podemos fazer constantemente as mesmas coisas. A criatividade está ligada aos sentidos. Se queremos ser mais criativos temos de expor o nosso paladar, o nosso olfato, a nossa visão, o nosso tato e a nossa audição a novas experiências.
Grandes artistas como Picasso ou Beethoven chegaram onde chegaram porque não tiveram medo de se expor a novas experiências. Há sempre lições a retirar de uma nova experiência, seja ela positiva ou negativa.

Defende no seu livro que a criatividade aliada à inovação é a força motriz de todos os negócios e também a chave do sucesso do Cirque du Soleil. Porquê?Esta é uma ideia que refiro sempre nas minhas conferências. A criatividade permite-nos avançar. Por exemplo, se não estimularmos os nossos empregados a serem criativos nos seus postos de trabalho, eventualmente, a nossa companhia irá estagnar. Isto, porque sem criatividade não existem ideias a circular, logo não há inovação. E num mundo tão competitivo como o nosso, a inovação assume-se como um fator decisivo nos negócios. Se não inovarmos uma outra empresa irá dar esse passo primeiro e nós ficamos irremediavelmente para trás.

A certa altura do seu livro define criatividade como "uma vontade de correr ricos, tentar novas coisas e partilhar a experiência com os outros". Podemos deduzir que o risco é fundamental para atingir o sucesso?Eu diria antes que o risco é essencial para continuarmos no topo. Correr riscos, apostar no desenvolvimento do nosso produto e nas pessoas que trabalham connosco é crucial. Mas ninguém deve decidir, de um dia para o outro, que a partir de agora vai correr riscos. Antes de mais, há que investir nas pessoas que trabalham consigo, na sua equipa. Caso contrário, o risco não compensa. A grande riqueza das organizações são os seus funcionários.

Em momentos de crise, como o que vivemos atualmente, a criatividade é um trunfo ainda mais importante?Absolutamente. A criatividade é a solução para nos tirar da crise. Nestas alturas é preciso agir, e agir de uma forma criativa. Temos de olhar para o nosso produto e encontrar uma forma de o rentabilizar. Às vezes, é mudar a forma como vendemos os bilhetes, outras como melhoramos o produto com menos dinheiro ou a comunicação com o público. O importante é deixarmo-nos de queixar e encontrar soluções criativas para sair da crise. A criatividade é a solução.

E qual o papel dos líderes em momentos de crise?É em momentos de crise que surgem os verdadeiros líderes, porque quando as coisas estão calmas é fácil liderar. E não falo apenas em momentos de crise financeira. Os líderes têm de ser capazes de motivar os seus trabalhadores a ultrapassar momentos difíceis. Um líder é líder porque olha constantemente para o futuro. Portanto, não pode estar sempre a desculpar-se com as dificuldades que surgem. O líder tem a obrigação de ser o primeiro a motivar os seus seguidores.

O seu livro é um manual de como aplicar a criatividade em tudo o que fazemos, mas ao mesmo tempo, é uma lição de vida que alia a fantasia do Cirque du Solei ao dia a dia de um cidadão comum. Quais os grandes ensinamentos que os leitores devem reter de "A Chama da Criatividade"? O primeiro é que todos temos um potencial criativo dentro de nós. Todos podemos ser criativos no nosso dia a dia, mas para isso temos de nos abrir ao mundo. Por outras palavras, temos de despertar os nossos sentidos. A segunda tem que ver com a minha crença no potencial do trabalho em equipa. Se estivermos inseridos numa equipa forte evoluímos mais depressa, somos mais criativos e mais produtivos. Por fim, um último ensinamento importante é que tudo o que precisamos para sermos mais criativos está à nossa volta, mesmo à nossa frente, basta estarmos atentos.

Nas suas intervenções faz sempre questão de salientar a entrega e dedicação de todos os funcionários do Cirque du Soleil, sejam eles artistas, cenógrafos ou advogados. Podemos concluir que a paixão é a chave para tudo o que fazemos?Eu gosto de pensar que a paixão é a chave para tudo o que fazemos bem. É diferente. Sempre que encontramos um excelente professor, um excelente informático, um excelente médico ou um excelente cozinheiro é porque ele sente prazer no que está a fazer. Quando sentimos paixão pelo que fazemos somos perfeccionistas e, portanto, somos bem sucedidos. Acredito que se sentirmos prazer em tudo o que fazemos, somos mais felizes.

Fonte: Expresso

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