quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Todo o empreendedorismo é social




Sem qualquer desprimor pelos inovadores sociais que, contra tudo e contra todos, tentam resolver os mais complexos desafios do mundo, o presente artigo, publicado na Stanford Social Innovation Review, chama a atenção para os denominados empreendedores “normais”, ou seja, aqueles que criam empresas e, consequentemente, contribuem também para a melhoria das condições de vida das populações. E todos são indiscutivelmente necessários.

Ao longo da última década, o conceito de “empreendedor social” tornou-se numa forma fashion de descrever indivíduos e organizações que, nas suas tentativas de mudança em escala elevada, desvanecem as fronteiras tradicionais entre os sectores lucrativos e não lucrativos. Dado o aparecimento incessante de inovações e novas formas institucionais, é de bom-tom dar as boas-vindas a um novo termo que nos permite pensar, de forma sistemática, sobre uma área ainda considerada emergente.

Um perigo, contudo, é o de que a utilização deste conceito de “modificador social” possa diminuir os contributos dos empreendedores normais, ou seja, as pessoas que criam novas empresas e que as fazem crescer. No seu caminho de fazer o “business as usual”, estes empreendedores normais criam milhares de empregos, aumentam a qualidade de bens e serviços disponíveis para os consumidores e, caso tudo corra bem, aumentam os padrões de vida dos mercados que servem. A título de exemplo, as histórias interligadas dos negócios e da saúde nos Estados Unidos sugerem que todo o empreendedorismo é empreendedorismo social. O panteão do modelo social de empreendedorismo deverá, desta forma, incluir nomes como o barão das linhas ferroviárias Cornelius Vanderbilt, o magnata das embalagens de carne Gustavus Swift ou o gigantesco produtor de software, Bill Gates.

O guisado da pobreza
As pessoas tendem a pensar que as inovações nos cuidados de saúde, por exemplo, constituem realizações ou do governo ou do sector social. E, nos tempos mais recentes, as pessoas também notam que os empreendedores sociais estão a melhorar as condições de saúde das populações, especialmente nos países em desenvolvimento.

Contudo, a experiência dos Estados Unidos demonstra que os empreendedores de negócios têm feito tanto – ou mais ainda – pela saúde americana nos últimos 150 anos quanto a saúde ou medicina públicas. Em meados do século XIX, a maioria da população norte-americana era ridiculamente pobre comparativamente aos padrões da actualidade. Os americanos não só auferiam rendimentos baixos, mas também gastavam o pouco que lhes restava em “básicos”, como comida, alimentação e abrigo. E aquilo que compravam era, na sua grande maioria, de qualidade questionável. Como não existia refrigeração ou capacidade para transportar alimentos entre distâncias longas, a miaria das pessoas subsistia com um singelo guisado, simples e sem sabor. Ou seja, uma dieta pobre significava uma nutrição pobre o que, por sua vez, equivalia a uma saúde igualmente pobre.

O mesmo acontecia com as roupas que vestiam. Com uma produção escassa de roupas novas, o americano médio vestia as mesmas roupas uma e outra vez. E raramente as lavava – sendo que raramente se lavavam a si mesmos, pois não possuíam água canalizada. Mas esta não era a única coisa que faltava aos agregados americanos: as suas casas não tinham ventilação, o que significava que o ar inspirado pelos seus pulmões provinha dos cozinhados e das fogueiras que faziam para se aquecer.

Devido a estas condições de pobreza, as vidas dos americanos eram de curta duração e as suas mortes eram, na grande maioria, causadas por doenças. Contudo e desde os anos de 1850, a esperança de vida dos americanos cresceu de uma forma significativamente rápida, de valores inferiores aos 50 anos na altura até aos 78 anos, em média, na actualidade. Da mesma forma, as taxas anuais de mortalidade sofreram um enorme decréscimo, de um valor de 23 mortes por 1000 pessoas em 1850, a oito em 2009, com a mortalidade infantil a decrescer igualmente. As doenças infecciosas recuaram igualmente como causa principal de morte.

Obviamente que foram muitos os factores que contribuíram para estas alterações radicais, desde a melhoria nas condições sanitárias até aos desenvolvimentos na educação. (As práticas medicinais tiveram um papel significativamente pequeno nestas conquistas e, em muitos casos, fizeram até mais mal que bem ao longo de muitos anos). Mas existe um factor importante que é, muitas vezes, ignorado: o consumo crescente de bens e serviços de qualidade elevada. E como os empreendedores inventaram e distribuíram estes novos bens e serviços, merecem um crédito considerável pelo aumento da saúde e longevidade americanas.

Os motores do bem-estar
A lição que se pode retirar desta breve história não significa que os empreendedores, sozinhos, possam resolver os problemas do mundo. Medidas de saúde pública como a recolha regular do lixo nas ruas ou a construção de infra-estruturas de confiança no que respeita a água canalizada obviamente que tiveram um papel principal na melhoria da saúde dos americanos, bem como os avanços científicos no que respeita a vacinas e vitaminas, por exemplo. Mas não estaríamos a ser justos se não contássemos com nomes como Vanderbilt, Swift ou Wanamaker (um grande distribuidor de artigos de vestuário) enquanto empreendedores sociais.

Actualmente, somos igualmente obrigados a incluir nesta categoria de empreendedorismo social nomes como o de Bill Gates – no que respeita à sua capacidade enquanto fundador da Microsoft e não como o grande filantropo que é hoje – bem como o já falecido Don Fisher, fundador da Gap. Através da sua visão de “teimosia” e persistência no que respeitou ao computador pessoal, Gates revolucionou o trabalho e a comunicação em todo o mundo. O impacto nos relacionamentos e na qualidade de vida foi considerável. E o mesmo se pode dizer da Gap, que democratizou o vestuário de alta qualidade.

Os empreendedores geram, tipicamente, um excedente de benefícios para cima e para além dos lucros que auferem, como afirma o proeminente economista de Yale, William Nordhaus. O economista calculou que os empreendedores capturam apenas dois por cento do seu excedente, sendo que o remanescente passa para a sociedade sob a forma de postos de trabalho, salários e valor. E, ao criarem esta quantidade de valor que não resulta em ganhos directos para si mesmos, os empreendedores normais são também empreendedores sociais.

Uma chamada a todos os empreendedores
Sendo assim, o que poderia ser hoje considerado como o equivalente a uma linha de caminhos-de-ferro e o seu impacto social benéfico? As doenças continuam a grassar na maioria dos países em desenvolvimento, portanto é compreensível que as tentativas para a sua diminuição atraiam a atenção das organizações do sector social (apesar de existir alguma controvérsia no que respeita ao facto de estas organizações estarem ou não a concentrar os seus esforços nas doenças “certas”). Todavia, talvez não seja erróneo afirmar que o acontecimento mais transformador verificado na trajectória económica destes países não seja a disseminação das vacinas, mas a difusão dos telemóveis.

Os telefones móveis não conseguem curar doenças, mas são capazes de estimular o desenvolvimento de novos modelos de negócio, novas empresas, novas tecnologias e, consequentemente, crescimento económico. Entre as empresas, os telemóveis também facilitam a ascensão das redes, dos pequenos empreendimentos e das inovações. Elas permitem que as pessoas possam sonhar mais alto, em vez de concentrarem apenas na linha da sobrevivência. Existem diversos estudos, realizados nos últimos anos, que demonstram que um aumento de 10% na penetração de telemóveis nos países em desenvolvimento  representaria uma taxa de crescimento anual do PIB em cerca de um ponto percentual. E se, à primeira vista, este valor pode não parecer significativo, poderemos considerar o exemplo de um país que cresça dois por cento ao ano, poderá duplicar o seu rendimento per capita em 36 anos. Ou, caso cresça três por cento, a duplicação dar-se-á em 24 anos. Ou quatro, e serão necessários 18 anos para que os seus habitantes aufiram o dobro do rendimento. O efeito multiplicador económico dos telemóveis é, desta forma, enorme.

Este crescimento traduzir-se-á na melhoria das condições de saúde e nutrição ao permitir que as pessoas consumam melhores produtos e serviços. Tal como o vencedor do Nobel da Paz e pai do microcrédito, Muhammad Yunus, observou: “o rendimento é o melhor dos remédios”.

Mais uma vez, tal não significa que as políticas públicas de saúde e as campanhas de vacinação não sejam extremamente importantes nos países em desenvolvimento. Mas, nas décadas vindouras, serão muito provavelmente os empreendedores normais – aqueles que constroem empresas – que serão recordados pelo seu papel em contribuir para uma sociedade melhor: ou sejam, os indivíduos específicos e as empresas que estão por detrás das inovações tecnológicas que tornam possível este crescimento. E os empreendedores, todos eles, fazem, decerto, bem à saúde.

Autor: Carl Schramm é presidente e CEO da Ewing Marion Kauffman Foundation. É também autor do livro The Entrepreneurial Initiative e co-autor de Good Capitalism, Bad Capitalism.










Traduzido e adaptado por Helena Oliveira

© Stanford Social Innovation Review

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